O
ENSINO E A ÉTICA NA CONTEMPORANEIDADE
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O presente trabalho apresenta uma
discussão e reflexão a respeito da ética na vida docente, buscando responder a seguinte pergunta: Qual a
relação entre ser professor e a ética? Embasado no artigo: Nas trilhas da ética
e da espiritualidade: novas possibilidades no campo do pensamento pedagógico de
Auricélia Lopes Pereira, e no texto: Professor, personalidade saudável e
relações interpessoais: por uma educação da afetividade, dos autores Juan José
Mouriño Mosquera e Claus Dieter Stobaus.
Em primeira instância faz se pertinente tentar
definir o termo ética.
Para o ramo da filosófica,
ética e moral tem significados diferentes. A ética está pautada aos valores
morais que orientam o comportamento humano em sociedade, a moral por sua vez
está ligada aos costumes, normas, tabus e convenções instituídas por cada
sociedade.
No artigo: Nas Trilhas da ética e da
espiritualidade: novas possibilidades no campo do pensamento pedagógico,
Pereira aborda a questão da ética pautada nas emoções, nos sentimentos, nas
questões internas dos sujeitos.
A autora ao citar Ítalo Calvino
aponta que a primeira virtude deixada escrita por Calvino para o terceiro
milênio é à leveza. A leveza seria então uma condição de subtração do peso, ou
seja, tornar-se mais leve, deixar sair os sentimentos, as questões que afligem
o ser humano. Discute também que um dos enormes desafios para o século XXI: é
tornar o mundo mais leve, diante de um mundo das constantes informações e
mudanças. O mundo contemporâneo está fragmentado, como adquirir leveza diante
de um mundo carregado, e afetado pela violência?! Precisamos urgente rever as
relações sociais, as relações do ser humano com o meio em que vive. Vivemos em
um mundo de imagens, constantes acontecimentos e mudanças, o efêmero, isto é, aquilo
que dura apenas um instante, que se esvai, mesmo assim pode ser um peso para a
alma. O que é efêmero em uma instância em outra é continuidade, a efemeridade
deixa marcas.
O professor em sua vida docente
necessita ter consigo leveza, para que possa subtrair o peso acerca das
energias “negativas” diariamente.
Um mundo cada vez mais diverso, onde todos são
diferentes e ao mesmo existem igualdades, o saber na contemporaneidade já não
dar conta das inquietações que faz parte desses novos tempos. Não que o docente
não deva dominar sua área de conhecimento, pelo contrário, o professor atual
deve dominar sua área de formação, porém precisa está ligado em outros assuntos,
e o grande paradigma da atualidade são as pontos internas do sujeito. O
professor não é um terapeuta, na sua formação docente estuda psicologia
justamente por necessitar de um olhar sensível acerca do outro.
Diante dessas considerações
percebeu-se que a ciência costumeiramente tende a separar o corpo e o espírito,
razão e emoção. Não devemos entender a ética não apenas como um conjunto de
regras, do qual o individuo é constituído, e sim a ética faz parte da
existência desses indivíduos, é sua maneira de se colocar no mundo, é sua
filosofia de vida. Enquanto a moral que são as regras estabelecidas por uma
instituição, a ética faz com que o sujeito administre a si mesmo. A ética tem o
objetivo de tornar o sujeito único, a moral apenas classifica-o.
Ainda no artigo
nas trilhas da ética e da espiritualidade, a autora infere que Felix Guattari,
na década de 90, resgata a ética a partir do conceito de ecosofia. No seu
entender a ecosofia restaura a ética como campo prático da vida. A ecosofia vem
a significar um cuidado com o mundo, com a sociedade e com o individuo, não
passa pela norma, pela moral, passa por outra atitude frente ás diferenças
éticas, estéticas, sociais, culturais e subjetivas.
A ecosofia
considera que o pluralismo é primordial e o respeito aos outros devem consistir
em todas as ações dos indivíduos.
O ser humano tende a simbolizar o
mundo, no processo de simbolização ou de dar significado ao mundo produz também
às singularidades, isto é, as diferenças. A diferença não deve ser vista como
algo a ser eliminada e sim um elemento a ser explicado, compreendido, uma vez
que faz parte de todos. A ecosofia social prioriza uma compreensão do mundo
plural, essa compreensão não visa à decodificação do outro, é respeitar a
peculiaridade do outro, o desafio do professor na contemporaneidade é ter essas
percepções, saber que vive num mundo plural e que precisa ter uma posição
acerca de uma atitude levando em conta a ecosofia social. O outro tem suas
diferenças, mas são elementos que fazem parte do humano, não sendo negativo ou
positivo necessariamente. A ética e a
espiritualidade na vida docente é uma das características a ser priorizada. O
professor deve aprender a conviver e a falar das diversas culturas, sem
estereótipos, é reconhecer que existe, sem basicamente impor um juízo de valor.
O mistério, segundo o artigo Nas Trilhas da Espiritualidade,
o mistério a estranheza são dimensões do viver. Segundo Pereira ao citar
Guattari coloca que: “A ecosofia social e ambiental impõe antes de tudo uma
reinvenção do sujeito. Só um sujeito ético está capacitado a viver num mundo
que tem como signo a pluralidade. Só um sujeito ético é capaz de, mesmo sem
compreender no seu todo, a diferença, acolher a sua estranheza”. (PEREIRA,
p.2).
Num mundo da diversidade um grande
modelo para a educação é a compreensão. São perguntas que devemos fazer
diariamente: - Como estamos nos relacionando com o outro? Como estamos
compreendendo o outro? Como estamos entendendo as diferenças? A compreensão é um dos elementos primordiais
para a vida e para o processo de educação. Como seres viventes no mundo, significamos
esse espaço onde habitamos, interpretando nossas experiências dando sentidos as
coisas, a nós e também ao mundo. Esses sentidos são possíveis graças às
impressões pessoais que também dialogam com o sentido histórico, uma vez que o
ser humano é biopsicossocial. Compreender significa diminuir a distância
entre eu e o outro. Para compreender a distância entre o eu e o outro, primeiro
é preciso compreender a distância entre o eu e minha imagem, ou seja,
compreender a si mesmo. A leveza é, pois uma atitude em relação ao outro, não
estabelece uma decodificação ou explicação, mas aceitar o outro nas suas
peculiaridades. A educação num mundo da diversidade acolhe a diferença, porém
só há acolhimento quando há aceitação e consequemente só há aceitação quando há
visibilidade.
Ao pautar a ecosofia social no
acolher a diferença, o acolhimento do sujeito por si mesmo pode ser entendido como
ecosofia mental. Trata-se de fazer um exercício de si para si mesmo (autoconhecimento).
No mundo contemporâneo precisa-se de um profissional que tenha um pensamento ou
reflexão sobre si mesmo e sobre o outro, não como um julgamento, mas como uma
forma de acolhimento. Uma das atribuições dos professores é de acolher o outro,
acolher a diferença.
As relações da ética na
contemporaneidade não se atem apenas questão respeito, porém a filosofia de
vida. A partir do momento em que o profissional tem afeto pela profissão ou área
de conhecimento e pesquisa a qual escolheu, passará esse êxtase aos educandos.
Os educandos intuem quando o educador ama a disciplina a qual leciona.
A filosofia de vida implica numa
sabedoria, para os gregos existia o saber útil que tem sua ascendência na
espiritualidade. O saber útil não era para todos os cidadãos,e sim para aqueles
que apresentavam uma meta existencial, desenvolvendo seu próprio eu, posto o
seu ethos, modo de ser. O saber útil estava ligado à Phronesis, o saber que se
propõe a refletir a respeito dos enigmas da vida e como acessar o eu.
A ecosofia mental estabelece que a
educação, e o apotegma pedagógico sugerem o retorno ao espiritual. A
espiritualidade conduz o homem a um saber terapêutico, assim o professor
precisa dessa espiritualidade para que possa conduzir a si mesmo e aos
educandos a um saber terapêutico. Para os filósofos antigos existia a enkratéia
(uma dobra de força que o sujeito faz sobre si mesmo, sobre sua própria vida).
A phronesi é o saber que serve para responder as inquietações da vida do
sujeito. Acreditar numa ética que o sujeito utiliza para si mesmo, fazendo de
si e da vida uma obra de arte. Não levaremos em conta apenas as experiências
adquiridas ao longo da vida no que diz respeito às conquistas de estudos e diplomas,
contudo pelo ser que nos tornamos, que somos e queremos ser. Que marcas
queremos tirar de nossa alma? Como chegaremos à outra maneira de viver? Como
lidar e aprender a conviver com os nossos fragmentos? Como ser ético numa
profissão que exige tanto de nossos esforços internos e externos?
A autora Auricélia ao citar Pelbart
assevera que: “em algum momento algo acontece e a vida racha ao meio,
desequilibra-se de modo que suas metades já guardam proporção alguma entre si.”
(PALBART,1998).
Geralmente “esse desequilíbrio da vida”, essa intranquilidade não é algo
essencialmente negativo. O sujeito mesmo passando pelas fases difíceis da vida,
precisa entender que isso é apenas um dado que faz parte do humano. É o sujeito
que imprimi valor a esse dado, porém é apenas um acontecimento. Os dados não
são carregados de peso, o peso é o sujeito que ao imprimir significados a esse
dado pode interpreta-o como peso. O sujeito pode então ter um novo olhar sobre
esse dado, esse interpretar os dados não precisa ser negativo, sempre se tem
outra forma de olhar e ver a vida.
A vida emocional e a relação
interpessoais dos professores, em sala de aula, um tema bastante discutido nos
últimos tempos. De acordo com os autores
Mosquera e stobäus (2002) que infere Biddle, Good e Goodson
(2000), citam Humber: que chamava a atenção da tentativa infrutífera de separar
a vida pessoal do professor e de sua vida profissional. Lembram que um
professor com mais condições de ser bem sucedido seria aquele que poderia e
deveria desenvolver uma personalidade saudável e melhores relações
interpessoais, tentando encaminhar-se para uma educação afetiva. (
MOSQUERA/STOBÄUS, p.91, 2002).
Considerando
as questões diárias emocionais afetivas, no campo pessoal e profissional
enfrentadas pelos professores, percebe-se que suas relações interpessoais estão
estreitamente ligadas a forma como ele lida com sua afetividade. Entretanto, uma das situações mais difíceis de
administrar é a hostilidade em sala de aula, na qual o profissional no ensino
deve procurar identificar seus incômodos sem projetá-los no campo profissional.
Essa hostilidade pode ter várias origens, internas ou externas, causadas ou
absorvidas. Ao identificar as origens dessa hostilidade, será possível melhor
desenvolver uma relação interpessoal com o grupo.
Ainda
se tratando das relações interpessoais, o texto fala da personalidade saudável,
onde se questiona o que é saúde, o que é doença, e qual a relação do professor
na atividade docente. Entendendo a personalidade saudável de acordo com o texto
seria quando uma pessoa consegue desenvolver sua capacidade critica e ouvir a
sua voz interior, identificando os sinais de doença, dessa forma também terá a
capacidade de ouvir o outro, compreendendo suas relações.
Conforme enfatiza os
autores: Mosquera, Stobäus:
Frequentemente nos
custa muito pra ouvir os outros, estamos muito mais preocupados em que nos
ouçam, porém pouco dispomos a ouvir. O ouvir os outros e aprender a vê-los como
são realmente é fundamental para as relações interpessoais, em especial para os
professores que devem está muito atentos e poder, assim, agir melhor na
realidade. (MOSQUERA, STOBÄUS; p. 97, 2002)
.
Assim, o princípio para
uma boa relação interpessoal, está no alto desenvolvimento, onde o profissional
saiba ouvir além de ser o mediador do conhecimento, estabelecendo uma postura
humana e reflexiva. Ao ministrar o conteúdo, o professor proporciona o
fluir da comunicação, pois seu foco são as pessoas, e estas passam diariamente
por transformações, internas e externas, estão sempre em desenvolvimento,
quebrando seus paradigmas, vivenciando complexos e mudanças. Mas o professor
não é diferente do seu foco, procura, portanto, construir-se diariamente para
melhor compreender as pessoas e seu ambiente suscetível a constantes mudanças.
Diante das considerações, trilhando o caminho da docência pela ética,
identificamos que o professor não é um ser passivo diante das transformações
sociais, este perante seu desdobramento traduz o acolhimento a vida, projetando
um novo olhar.
REFERÊNCIAS
MOSQUEIRA, Vera
Mauriño Mosqueira e STROBÄUS, Claus Dieter. O Professor, personalidade saudável
e relações interpessoais: por uma educação da afetividade. IN: ENRICONE,Délcia.(Org).
Ser Professor. Porto Alegre: EDIPUSRS,
2002, P.91-108.
PEREIRA,
Auricélia Lopes. Nas Trilhas da ética e
da espiritualidade: novas possibilidades no campo do pensamento pedagógico.