UMA MENTE BRILHANTE: A REPRESENTAÇÃO DA FIGURA DO DOENTE MENTAL NO CINEMA
Davi Querino da Silva[1]
Este artigo apresenta uma análise e reflexão do filme: Uma Mente Brilhante, destacando a representação da imagem da loucura, portanto no que concerne a percepção imagética acerca da suposta visão dos cineastas e de uma literatura relevante a temática.
Uma série de filmes vem à mente, porém destaca-se aqui o que enfoca a figura do “doente mental” em vários momentos. Geralmente o dito “louco” é caracterizado pelo descontrole, impossibilitado de uma vida social contrapondo-se aos conhecidos como “normais”. Os filmes discutem padrões de estereótipos, a desconstrução da imagem estereotipada da insanidade mental é primordial para destruir preconceitos e garantir os direitos do sujeito que sofre com esses transtornos. Se fosse possível traçar uma breve classificação dos modos como são postos em cena: teríamos filmes que trariam a doença mental como patologia biológica, cultural e como momentos. Nesse inventário, o que distingue o “louco” do “não louco”, do “normal” do “anormal”? Desse modo, passa-se a questionar e refletir sobre como o “louco” é visto pelo cinema.
Metodologicamente foi pertinente um estudo do referencial teórico sobre o filme e a temática abordada, a partir da leitura da “Historia da Loucura” de (Foucault,1978), é aceitável compreender que a concepção de loucura pode variar, dependendo dos valores sociais, relações de poder dentre outros fatores. O cinema e a literatura são arquivos documentais que trazem e fomentam discussões sobre a subjetividade humana.
O filme Uma Mente Brilhante (EUA, 2001, direção: Ron Howard ), traz na sua estética a doença mental, a genialidade de John Nash, matemático que aos 21 anos formula um teorema que o tornou aclamado na sua área de atuação. Mas em pouco tempo torna-se um homem atormentado, tendo constantes alucinações, diagnosticado como esquizofrênico, e após anos de luta consegue reverter esse quadro, sendo premiado com o Nobel. Nash era obcecado pelo perfeito e racional ao extremo. Esse foi um dos fatores que o afastou das outras pessoas, vivendo isolado.
Na universidade, sentia-se um fracasso, era igual a todos, no entanto tinha mania de grandeza, objetivava ser brilhante sempre, na idéia de encontrar a teoria original que o colocasse em destaque. Quando aparece (o seu amigo Charles) que o aconselha a procurar ou buscar respostas observando às pessoas, a paisagem, a natureza e não preso entre quatro paredes, com o elevado ego.
Mas foi Alicia na aula de matemática ministrada por ele que o chamou atenção, pela forma singela, simples como ela tornara as coisas e até os problemas ou equações matemáticas mais fáceis. Eles se apaixonam, casam e tem um filho.
Tudo aparentemente estava bem, John trabalha muito, até que se descobre que havia algo fora do comum. Quando começa a ter delírios, alucinações, Alicia é forçada a interná-lo em um hospital psiquiátrico, quando é diagnosticado como esquizofrênico. A esquizofrenia é uma clivagem do ego, em outra concepção ( NASAR, 2006) pode ser uma doença do raciocínio nas fases iniciais. No inicio do século XX, os grandes estudiosos da doença observaram que os pacientes incluíam pessoas com mentes brilhantes, que os delírios, nem sempre apareciam com o distúrbio.
O filme segue com uma série de desafios, John luta contra a suposta doença e contra o preconceito. John Nash se “cura” na medida em que foi capaz de discernir entre: o real e alucinação. Quando percebeu que a “menininha”(visível apenas na imaginação dele) não crescia. A função do ego do personagem, provavelmente seu senso de percepção do mundo estava alterado, tendo as alucinações, isto é, a vida de decodificador secreto não existia e seus pensamentos transformaram-se em delírios. Ao orientar-se psiquicamente e alo psiquicamente, conseguiu controlar os momentos de neuroses e/ou psicoses.
O filme chama-se Uma Mente Brilhante devido o paciente discernir o que fazia parte do contexto real e o que estava no campo alucinatório. Ele continuou sentindo alguns “sintomas”, porém passou a ter consciência da realidade e aceitou, culminando com a superação dos efeitos dos sintomas. O sintoma é uma saída, uma produção que precisa ser positivada, contemplada em sua dimensão de resposta a um momento de crise ( KRUTZEN, 2008).
Na cena em que os “amigos” imaginários de John, instigam matar a sua esposa, ele volta à realidade lutará contra isso, e começa a se tratar. Esse voltar à realidade é a atuação das funções e dos mecanismos de defesa do ego. Nesse momento é perceptível que John Nash teve consciência do que estava acontecendo, ou seja, há uma ação do ego e do superego nesse processo. O fator importante no processo de “tratamento” do paciente foi o seu mecanismo de defesa, que em algumas instancias pode ser entendido como um surto psicótico ou a neurose e a consciência dessa fase pela qual estava passando.
O filme apresenta uma narrativa muito fragmentada e por vezes sem nexos. O espectador perceberá que se trata de alucinações, praticamente na metade da narrativa.
O filme foi baseado em um livro de Sylvia Nasar, e roteirista Akiva Goldsman.
É interessante observar que o filme, traz em seus elementos o louco como individuo que tem ou teve uma atividade na vida social, contradizendo a concepção de que alguém que aparenta um distúrbio ou momentos de psicoses seja incapaz de exercer uma profissão ou de conviver com as outras pessoas. No final do filme, o personagem John Nash diz para Alicia em público: Sempre acreditei em números, em equações e na lógica que leva a razão. Mas depois me pergunto: o que é mesmo a lógica, quem decide o que é racional? O delírio e de volta então fiz a descoberta mais importante da minha vida, a descoberta nas equações do amor, onde alguma lógica existe. Estou aqui por sua causa, você é a razão pela qual existo, você é minha razão.
A análise e as pesquisas cinematográficas acerca de Uma Mente Brilhante apontam para que a representação da imagem do doente mental é entendida como momentos de psicoses e neuroses. Esses não devem ser entendidos como patologias, pois a psicanálise e a psicologia analítica entendem que esses surtos fazem parte do humano, é uma maneira de defesa de re-estabilizar algo que não está funcionando bem ou alterado. No filme Uma mente Brilhante, John Nash era um neurótico obcecado pelos teoremas matemáticos e tinha alucinações. O personagem se cuidou ou deixou que o cuidasse, quando conseguiu distinguir o “ real’ das alucinações e fantasias. Possivelmente por ter encontrado alguém com quem pode compartilhar a sua dor (o conectar-se, está em rede). John não deixou de ver seus “fantasmas” ou seus amigos imaginários, apenas aprendeu como enfrentar essas fases de sua vida. O espectro cinematográfico nos leva a supor que história de John Nash discute a genialidade, a loucura, o amor e um novo despertar.
Palavras-chave: Cinema, arteterapia e loucura.
[1] Artista Plástico, arte/educador, graduado em Educação Artística (Artes Plásticas) –UFPB,
Aluno da Especialização em Arteterapia em Saúde Mental- UFPB e da Especialista em Artes-FIJ